7 de abr de 2008

Esquerda e direita




Autor: Roberto Campos (1917-2001)
Publicado em 29/08/1999

Neste último fim de semana, fiquei comovido com o incisivo texto que Heitor Cony escreveu a meu respeito em sua coluna na Folha. Não sendo mais criança (maneira eufemística de ocultar minha condição de octogenário), tenho o couro duro de tanto apanhar. Não me queixo, porque, afinal, esse é o preço da vida pública e nela eu me meti por vocação e não por obrigação. Confortou-me sempre o dichote de Adenauer que "ter couro de elefante é o maior dom que Deus pode dar a um estadista". A coluna de Cony, um dos meus hábitos de leitura, mexeu com idéias que há muito eu mantinha guardadas nos escaninhos do espírito.

Esquerda e direita são conceitos demasiado desgastados, simplificações como todas as categorias que aqueles, como Cony e eu, que passaram pela disciplina filosófica do seminário, chamam de "universais", sempre prenhes de contradições e antinomias. Originariamente, como se sabe, esquerda e direita eram apenas lugares de cadeiras na Assembléia Nacional Francesa. Os mais radicais contra o estado de coisas acabaram ficando como "esquerda", e o oposto valia também para a "direita". A topografia ideológica foi transposta para as correntes socialistas e conservadoras, ao longo do século 19, e herdada pelo "curto século 20", conforme a expressão de Hobsbawm. A questão diante da qual estamos hoje não se vincula mais a esse jogo de cadeiras. E não nos resta mais alternativa senão avaliar a complexa herança dos movimentos socialistas, à luz das espantosas mudanças pelas quais vem passando nosso planeta na era da globalização e da digitalização.

Sei que é difícil escolher nos guardados do passado o que ainda tem utilidade e o que tem apenas valor da saudade da infância, das idéias por que lutamos e que ficaram para trás. Nosso modo de pensar tende a ser reducionista. É o custo da sua lógica interna, e por isso é que a arte e o sonho tanto divergem da racionalidade "operacional" que a realidade concreta nos impõe. Todos nós, em maior ou menor grau, temos nossas divisões íntimas entre utopia e realismo. A idéia de "esquerda" e "direita" desgastou-se a tal ponto que hoje só serve para fins objurgatórios, isto é, para acusar de "politicamente incorretos", aqueles que, de algum modo, não são a favor da maneira de ver por nós tida como "correta".

A real querela remanescente é entre os "liberais", que acreditam na primazia do mercado competitivo, e os "dirigistas", que acreditam na primazia do Estado interventor. Creio que não haverá ninguém verdadeiramente humano que não fique indignado, por vezes, com certos casos do mundo real, e não queira mudá-los. Mas é próprio apenas da imaturidade juvenil achar que sabe o suficiente sobre tudo o que pode acontecer e que pode prever todas as consequências de seus feitos. Ideal e realidade são os dois pólos extremos entre os quais se tensiona a condição humana. E a falta de algum deles é mutilante.

A Revolução Francesa — filha do racionalismo e do humanismo que confluíram na formação do pensamento liberal — contestava a noção de privilégios hereditários, dados pela posição social de uma pessoa em função do acidente do nascimento. E a América era "o seu canteiro e escola", diria Schlegel em 1928. Pouco mais de um século depois, a democracia americana passaria a ser, para Sartre, "a mais odiosa forma de capitalismo". A burguesia ascendente, que representava o modo de produção que iria derrubar a velha ordem econômica agrária, ostentava uma ótica igualitária meritocrática (típica do primeiro socialista utópico, Saint Simon).

Não tardaria porém que se percebesse que estavam surgindo novas formas de desigualdades que, no extremo, significavam acumulações opostas de pobreza, degenerando para a miséria, e de riqueza, crescendo para a opulência. Foi quando Marx indagou por que, se a capacidade de produção estava se multiplicando tanto pela tecnologia e pela organização capitalista, alguns haveriam de ter demais, e outros, de menos. No seu momento, pergunta válida. Mas a experiência mostraria que as coisas eram bastante complicadas. Por exemplo, haverá algum modo eficiente e razoável de se tirar o suficiente dos que têm demais para dar aos que têm de menos? A proposta marxista era os "expropriados" expropriarem os "expropriadores", e assumirem o controle dos meios de produção. A segunda parte não funcionou, e a experiência soviética afundou com ela. A proposta, muito mais antiga, do Cristianismo, produziu alguns santos, mas ninguém descobriu como transformar as virtudes da caridade e do amor ao próximo em comportamento cotidiano.

O problema das tentativas de ver o mundo na perspectiva de valores transcendentes é que esses precisam de mecanismos intermediários o que, em última análise, significa alguém mandando e os demais obedecendo. Isto é, do poder de violência de alguém que seja o detentor da verdade absoluta. Sabemos como têm sido os donos da verdade. Uns 120 milhões de vítimas dos regimes de esquerda, uma guerra mundial, e muitos milhões da contraparte de direita, fora o resto. A idéia das velhas esquerdas dos anos 50 a 80, de luta armada, totalmente fora da realidade, só serviu para estimular a reação antidemocrática. A meia gestão da economia pelo Estado deu no que deu — "o estado a que chegamos", como disse o velho comuna Aporelli.

Falo com a consciência de quem talvez tenha sido, de Vargas a Castello, um defensor influente da ação sistemática do Estado na economia. Infelizmente, o Estado, numa sociedade menos desenvolvida, espelha as contradições e deficiências nela existentes. Por isso é que a opção pelo mercado, como grande educador para a eficiência, acabou por se tornar, na prática, a única viável — um plebiscito permanente que regula esse duro fato da vida que é a escassez. Não me entusiasma a sociedade de consumo desenfreado, nem penso que o mercado seja o árbitro de todos os valores. Esses têm de vir da cultura, da sociedade, das pessoas. Sem radicalismos de "direita" e "esquerda". "Todas as revoluções passam", dizia Kafka, "e só resta o lodo de uma nova burocracia"...