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Sobre a reforma

No início de 2009 entrou em vigor, no Brasil, a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa . A intenção é boa: simplificar a grafia e unificar as regras. No entanto, é preciso lembrar que a acentuação não tem uma mera função estética: em muitos casos, a acentuação explica a pronúncia. Imagine uma pessoa que está aprendendo o idioma -- seja uma criança, um adulto ou um estrangeiro. Como explicar que linguiça tem pronúncia diferente de enguiça ? Como explicar que ideia não tem som similar a odeia ? Como explicar a pronúncia de quinquênio a um atleta do Quênia que venha disputar a São Silvestre ? São mudanças que contrariam o bom senso. A Reforma acertou ao unificar a regra do hífen e simplificou ao retirar acentos em palavras como voo e pelo , mas não conseguiu atingir seu objetivo de unificar o idioma. Por exemplo, ainda ficaram regras diferenciadas, como o acento de gênio ( génio em Portugal). O Prof. Pasquale definiu bem a Reforma Ortográfica : "é uma reforma meia-sola, que ...

Vida nova

Há um mês meu casamento acabou, depois de 13 anos. Saí de casa, fui morar no apartamento emprestado de um amigo, repensei minha vida. Agora estou iniciando uma nova etapa, aluguei um apartamento no prédio onde morei nos anos 80, na minha adolescência. Estou sozinho, mas é como diz o ditado: antes só do que mal acompanhado. Aprendi coisas importantes sobre relacionamentos e pessoas, mas não ouso me considerar experiente nem me atrevo a dar conselhos. Estou recomeçando a vida praticamente do zero, posso dizer que as únicas coisas boas que restaram após todos esses anos são minhas duas filhas lindas e maravilhosas, que felizmente já estão com 12 e 9 anos e conseguem entender melhor a situação. PS: Não pretendo voltar a falar sobre minha vida pessoal aqui no blog.

Esquerda e direita

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Autor: Roberto Campos (1917-2001) Publicado em 29/08/1999 Neste último fim de semana, fiquei comovido com o incisivo texto que Heitor Cony escreveu a meu respeito em sua coluna na Folha. Não sendo mais criança (maneira eufemística de ocultar minha condição de octogenário), tenho o couro duro de tanto apanhar. Não me queixo, porque, afinal, esse é o preço da vida pública e nela eu me meti por vocação e não por obrigação. Confortou-me sempre o dichote de Adenauer que "ter couro de elefante é o maior dom que Deus pode dar a um estadista". A coluna de Cony, um dos meus hábitos de leitura, mexeu com idéias que há muito eu mantinha guardadas nos escaninhos do espírito. Esquerda e direita são conceitos demasiado desgastados, simplificações como todas as categorias que aqueles, como Cony e eu, que passaram pela disciplina filosófica do seminário, chamam de "universais", sempre prenhes de contradições e antinomias. Originariamente, como se sabe, esquerda e direita eram apena...

O discurso de John Galt

Por doze anos você tem perguntado "Quem é John Galt?". Aqui é John Galt falando. Eu sou o homem que levou embora suas vítimas e assim destruiu o seu mundo. Você ouviu dizer que esta é uma era de crise moral e que os pecados do Homem estão destruindo o mundo. Mas sua principal virtude tem sido o sacrifício, e você pede mais sacrifícios a cada novo desastre. Você sacrificou a justiça em nome da misericórdia, felicidade em nome do dever. Então, porque você tem medo do mundo ao seu redor? Seu mundo é somente o produto dos seus sacrifícios. Enquanto você estava arrastando para os altares do sacrifício os homens que tornaram possível sua felicidade, eu o venci. Eu cheguei primeiro e contei para eles o jogo que você estava jogando e onde isso iria os levar. Eu expliquei as consequências da sua moralidade de 'amor entre irmãos', que eles tinham sido inocentemente generosos demais para entender. Você não irá encontrá-los agora, quando você precisa deles mais do que nunca. Nós ...

Não existe direita no Brasil

Trecho da entrevista de Fernando Henrique Cardoso à Revista Veja de 22 de março de 2006 (edição 1948): Pode-se concluir que o senhor se considera de esquerda? Sim, me considero. Mas da esquerda democrática, à la Bobbio [Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo e cientista político italiano] . Sou de esquerda quanto à defesa de valores como a justiça social e a igualdade. Por que nenhum político brasileiro diz que é de direita? Porque no Brasil a palavra "direita" está associada historicamente à ditadura. É uma questão semântica. Mas existe um outro lado: não existe direita no Brasil , no sentido clássico do conceito . Fiquei impressionado, certa vez, com uma intervenção do Sérgio Buarque de Holanda . Foi na defesa de uma tese de livre-docência sobre os estilos de pensamento político no Brasil do século XIX. A autora estabelecia uma diferença entre o marquês de Paraná, figura maior do pensamento conservador, e Joaquim Nabuco, expoente do pensamento progressista, quando o...

História da Centralização

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A história da centralização do poder no Brasil pode ser contada pelas duas primeiras Constituições da República. A primeira, de 1891, dava bastante autonomia aos estados; a segunda, de 1934, centralizava todo o poder no governo federal. Foi o início do processo que condenou o Brasil ao atraso. Na Constituição de 1891 , o Art. 6º dizia que o Governo federal não poderia intervir em negócios peculiares aos Estados , salvo para: repelir invasão estrangeira (ou de um Estado em outro), manter a forma republicana federativa, restabelecer a ordem e a tranqüilidade nos Estados (mediante requisição dos respectivos Governos) ou assegurar a execução das leis e sentenças federais. Vejam que maravilha: era a legítima Federação , onde os estados tinham autonomia de verdade. Pena que essa liberdade durou pouco. A Constituição de 1934 trouxe todas as decisões para a União, lançando a semente do paquiderme estatal que temos hoje. O Art. 5º listava as inúmeras atribuições privativas da União, dentre e...

O Colapso da URSS

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Tradução do artigo The Soviet Collapse , de Yegor Gaidar , publicado em 19 de abril de 2007. O título do meu último livro [N.T. o livro de Yegor Gaidar ], que eu gostaria de discutir hoje, pode ser traduzido como "O Colapso de um Império: Lições para a Rússia Moderna" ( The Collapse of an Empire: Lessons for Modern Russia ) [1]. Ele relata a história dos últimos anos da União Soviética. Mas quando escrevi sobre a URSS, tinha em mente os dilemas da Rússia contemporânea. Há vários fatores que me fizeram escrever este livro. O primeiro foi o aumento nos preços do petróleo, que em termos reais começaram a se aproximar dos níveis do final da era de Brezhnev. O segundo foi a tendência perturbadora em mitificar o período final da URSS na atual sociedade russa e em sua cultura popular. Estes mitos incluem a crença que, apesar dos problemas, a URSS era uma superpotência mundial dinâmica até que usurpadores iniciaram reformas desastrosas. Ao menos 80% dos russos estão convencidos ...