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Não existe direita no Brasil

Trecho da entrevista de Fernando Henrique Cardoso à Revista Veja de 22 de março de 2006 (edição 1948): Pode-se concluir que o senhor se considera de esquerda? Sim, me considero. Mas da esquerda democrática, à la Bobbio [Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo e cientista político italiano] . Sou de esquerda quanto à defesa de valores como a justiça social e a igualdade. Por que nenhum político brasileiro diz que é de direita? Porque no Brasil a palavra "direita" está associada historicamente à ditadura. É uma questão semântica. Mas existe um outro lado: não existe direita no Brasil , no sentido clássico do conceito . Fiquei impressionado, certa vez, com uma intervenção do Sérgio Buarque de Holanda . Foi na defesa de uma tese de livre-docência sobre os estilos de pensamento político no Brasil do século XIX. A autora estabelecia uma diferença entre o marquês de Paraná, figura maior do pensamento conservador, e Joaquim Nabuco, expoente do pensamento progressista, quando o...

História da Centralização

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A história da centralização do poder no Brasil pode ser contada pelas duas primeiras Constituições da República. A primeira, de 1891, dava bastante autonomia aos estados; a segunda, de 1934, centralizava todo o poder no governo federal. Foi o início do processo que condenou o Brasil ao atraso. Na Constituição de 1891 , o Art. 6º dizia que o Governo federal não poderia intervir em negócios peculiares aos Estados , salvo para: repelir invasão estrangeira (ou de um Estado em outro), manter a forma republicana federativa, restabelecer a ordem e a tranqüilidade nos Estados (mediante requisição dos respectivos Governos) ou assegurar a execução das leis e sentenças federais. Vejam que maravilha: era a legítima Federação , onde os estados tinham autonomia de verdade. Pena que essa liberdade durou pouco. A Constituição de 1934 trouxe todas as decisões para a União, lançando a semente do paquiderme estatal que temos hoje. O Art. 5º listava as inúmeras atribuições privativas da União, dentre e...

O Colapso da URSS

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Tradução do artigo The Soviet Collapse , de Yegor Gaidar , publicado em 19 de abril de 2007. O título do meu último livro [N.T. o livro de Yegor Gaidar ], que eu gostaria de discutir hoje, pode ser traduzido como "O Colapso de um Império: Lições para a Rússia Moderna" ( The Collapse of an Empire: Lessons for Modern Russia ) [1]. Ele relata a história dos últimos anos da União Soviética. Mas quando escrevi sobre a URSS, tinha em mente os dilemas da Rússia contemporânea. Há vários fatores que me fizeram escrever este livro. O primeiro foi o aumento nos preços do petróleo, que em termos reais começaram a se aproximar dos níveis do final da era de Brezhnev. O segundo foi a tendência perturbadora em mitificar o período final da URSS na atual sociedade russa e em sua cultura popular. Estes mitos incluem a crença que, apesar dos problemas, a URSS era uma superpotência mundial dinâmica até que usurpadores iniciaram reformas desastrosas. Ao menos 80% dos russos estão convencidos ...

Cotas nas universidades

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É um absurdo termos universidades públicas gratuitas, custando bilhões por ano dos nossos impostos, enquanto temos um ensino básico (fundamental e médio) de péssima qualidade. Os governos, em todos os níveis, deveriam dedicar 100% da verba da Educação para o ensino básico pra resolver o problema. Qual o objetivo das cotas? Dar um "handicap" aos oriundos das escolas públicas, que recebem um péssimo serviço. Dar cotas é é atacar o sintoma, não a causa: ao invés de melhorar a escola pública -- ou implantar vouchers , que seria o ideal -- o governo piora a universidade pública, colocando pra dentro alunos menos qualificados que, numa seleção normal, ficariam de fora. Seria como se a CBF tivesse uma péssima escolinha de futebol que não conseguisse colocar nenhum jogador na Seleção Sub-17 da própria CBF. Daí a entidade estabelece um sistema de cotas: 30% dos convocados devem ser da escolinha da CBF. Isso vai resolver o problema, ou vai piorar a nossa seleção? Não seria melhor tenta...

Rui Barbosa e a vergonha de ser honesto

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Outro dia estava no Orkut , no fórum de uma comunidade , quando li o desabafo de um internauta, indignado com os rumos do Brasil. Depois de citar vários crimes cujos autores ficaram (ou ficarão) impunes, indo de fraudes na Previdência até o recente assassinato do menino João Hélio, ele disse o seguinte: "Errado sou eu que acordo às 04:30 da manhã para ir trabalhar, pago IPTU, CPMF, IPVA e outras merdas por aí. Bem feito pra mim, quem mandou eu ser honesto." Imediatamente me lembrei de uma famosa citação de Rui Barbosa (1849-1923). Eu não tinha maiores informações sobre o contexto no qual a frase foi proferida, mas as palavras do imortal (ele presidiu a Academia Brasileira de Letras) foram estas: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." Resolvi pesquisar na I...

Liberais versus Conservadores

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Acho triste essa briga entre defensores do livre mercado por causa de questões religiosas e/ou liberdades pessoais. Já somos poucos e com pouca força nesse Brasil de esquerdistas; se nos dividirmos ficaremos mais fracos. Napoleão consagrou a tática do "dividir para conquistar" nos campos de batalha: estamos usando-a contra nós mesmos. Temos que encontrar meios de tolerar as diferenças. Não acho que seja produtivo ficar discutindo a definição de "liberal de verdade", ainda mais usando a emoção ao invés da razão para embasar argumentos. Se for imprescindível separar quem é quem, que se usem termos consagrados como liberal-conservador e libertário . Usando a teoria dos conjuntos, podemos dizer que ambas as definições estão contidas no ideal liberal. Ao contrário do que disse Olavo de Carvalho , existe sim a figura do liberal-conservador : é aquele que acredita no livre mercado e também acredita em religião (geralmente judaico-cristã), tradição, bons costumes, etc. ...

Youtube desbloqueado

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O desembargador Ênio Santarelli Zuliani deve ter conversado com uma criança de 10 anos, que provavelmente entende mais de Internet do que ele, e divulgou um novo despacho desbloqueando o Youtube . No texto ele tenta se justificar: Tal determinação decorre do poder concedido ao juiz para empregar meios de coerção indiretos [art. 461, § 5º, do CPC] no sentido de obter efetivo cumprimento das decisões judiciais. (...) O Youtube não cumpre a sentença, o que constitui ofensa ao art. 5º, XXXV, da CF, uma ameaça ao sistema jurídico. As sentenças são emitidas para serem executadas. Mesmo que a decisão judicial seja impossível de ser cumprida? Se outro juiz igualmente desinformado mandar, num canetaço, que todos os arquivos da Internet tenham pelo menos um bit com valor 2 (dois), os sites que não obedecerem serão tirados do ar? E ele ainda acha que teve sucesso na empreitada: O incidente serviu para confirmar que a Justiça poderá determinar medidas restritivas, com sucesso, contra as empresas,...